Martin Heidegger
Martin Heidegger (1889–1976): o Ser, o Dasein e o Ser-no-mundo
PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL E HUMANISTA
Isolda Bravin
1/24/20263 min read


Martin Heidegger é um dos filósofos mais influentes do século XX e foi profundamente marcado pela fenomenologia de Edmund Husserl, de quem foi aluno e assistente. No entanto, embora adote o método fenomenológico, Heidegger desloca radicalmente o foco da investigação filosófica. Enquanto Husserl se pergunta sobre como os fenômenos aparecem à consciência, Heidegger retoma uma questão ainda mais fundamental, que, segundo ele, foi esquecida pela tradição filosófica: a questão do ser.
Para Heidegger, a filosofia ocidental concentrou-se excessivamente nos entes — isto é, nas coisas que existem — e deixou de interrogar o que significa ser. Perguntamos o que são as coisas, como funcionam, como podem ser conhecidas, mas raramente refletimos sobre o próprio sentido do ser. É esse esquecimento que Heidegger pretende enfrentar em sua obra principal, Ser e Tempo (1927).
Para recolocar a pergunta pelo ser, Heidegger parte de um ponto decisivo: o ser só pode ser interrogado a partir daquele ente que se pergunta sobre o ser. Esse ente é o ser humano. No entanto, Heidegger evita utilizar conceitos tradicionais como “homem”, “sujeito” ou “consciência”, pois eles carregam pressupostos metafísicos que distorcem a experiência concreta da existência. Em seu lugar, ele introduz o termo Dasein, que significa literalmente “ser-aí”.
O termo Dasein indica que o ser humano não é uma substância isolada, nem uma consciência separada do mundo. O ser humano é aquele ente que já está lançado no mundo, vivendo, agindo, compreendendo e se relacionando antes mesmo de refletir teoricamente sobre isso. O Dasein não observa o mundo de fora; ele existe sempre em situação.
Esse ponto leva a uma das ideias centrais de Heidegger: o ser-no-mundo. Diferentemente da visão tradicional que separa sujeito e objeto, interior e exterior, Heidegger afirma que o Dasein é, desde sempre, ser-no-mundo. Isso significa que não há um “eu” primeiro que depois entra em contato com o mundo; a existência humana é, desde o início, uma relação inseparável com o mundo, com os outros e com as coisas.
O mundo, para Heidegger, não é apenas um conjunto de objetos físicos, mas uma rede de significados, práticas e relações. Por exemplo, um martelo não aparece primeiramente como um objeto com propriedades físicas, mas como algo “para martelar”, inserido em um contexto de uso. Assim, o mundo se revela ao Dasein de forma prática, cotidiana e significativa, antes de qualquer análise teórica.
Outro aspecto fundamental da existência humana é o fato de que o Dasein é temporal. Heidegger rompe com a ideia de tempo como uma sucessão de instantes cronológicos e afirma que o ser humano existe de modo temporal, projetando-se para o futuro, carregando um passado e vivendo o presente a partir dessas dimensões. O Dasein é sempre um ser-em-projeto.
Essa estrutura temporal está ligada à noção de facticidade e lançamento: não escolhemos as condições iniciais de nossa existência — época, família, corpo, cultura —, mas somos lançados nelas e precisamos assumir essa condição. A forma como respondemos a esse lançamento é o que caracteriza nosso modo de existir.
Heidegger também analisa a possibilidade de uma existência inautêntica, marcada pela dissolução do indivíduo no que ele chama de “o impessoal” (das Man) — o modo como “se vive”, “se pensa” e “se age” segundo expectativas sociais. Em contraste, a existência autêntica envolve assumir a própria finitude, especialmente a consciência da morte, como algo que singulariza o Dasein e o chama à responsabilidade por sua própria existência.
Assim, a filosofia de Heidegger não é uma teoria abstrata sobre o mundo, mas uma analítica da existência, que busca descrever as estruturas fundamentais do modo humano de ser. Seu pensamento influenciou profundamente a filosofia existencial, a psicologia, a psiquiatria, a hermenêutica e diversas abordagens clínicas que enfatizam a existência concreta, situada e temporal do ser humano.
Bibliografia
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.
HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.
INWOOD, Michael. Heidegger: uma introdução muito breve. São Paulo: Loyola, 2004.
DREYFUS, Hubert L. Ser-no-mundo: um comentário à analítica existencial de Heidegger. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.
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